19 de agosto de 2017

COMO UM SINO



Nei Duclós

Cada imagem tua é uma pintura
Arte que o espírito cultua
E aflora no rosto que emoldura
O melhor sorriso sobre a terra

Talvez seja amor só de memória
Que eu resgato entre as urzes da distância
Que seja assim. Quanto mais te distancias
Mais próximo da fonte me alimento

O vento sobre a tenda, as luzes do destino
Estás em mim mesmo em outro sonho
Que me envia as cenas de um encontro

Moro na vontade de ser pleno
Esse dia que esperar providencia
Quando eu tocar teu som mais íntimo
Que no coração é como um sino


ERA TUA ESSÊNCIA



Nei Duclós

Aproximei teu rosto para saber o segredo
Mas te mantinhas idêntica
ao que parecia miragem

Era tua essência
a surpresa vista de longe
pelo marinheiro de primeira viagem


ACORDAR



Nei Duclós

Quem está vivo parece eterno
quem está morto parece datado

Só acordamos para o tempo
quando ele colhe o próximo

Mas aí é tarde. Fazemos parte
do passado


18 de agosto de 2017

EM VOLTA DO TEMPO



Nei Duclós

Quando damos um tempo
não podemos tomá-lo de volta
Nem quando vendemos,
impossível comprá-lo depois

Tempo não se negocia
nem é esmola
É insumo básico
de sobrevivência

Perder tempo é inevitável
E não adianta procurar,
que não achamos
Ele some pelo ralo
do tempo que nos resta

Conte uma história
talvez ele fique por perto
e caia na armadilha
do eterno


15 de agosto de 2017

TODOS SE FORAM



Nei Duclós

Todos se foram e fechamos a cidade
Cuidaste dos jardins eu das ruas largas
Aviões inimigos nos espionaram
Mas sumiram depois de bombardear as águas

Foi ideia tua permanecer na casa
Tínhamos um terraço aberto para a mata
Hoje tudo é cinza, menos tua palavra
A que recitas em forma de parábola
Inclui a profecia da paz ainda nas fraldas

Faço a ronda até o limite da estrada
Mantenho longe os  predadores, lobos e águias
Pões o véu e visitas a Igreja no fim da tarde

Lá nos casamos, doce resistência da coragem
Que seria de mim disperso em qualquer front
Despedaçado pela despedida?

Por isso mantenho posição
Enquanto o vento bate no campanário
O som é de solidão mas somos a vigília

Nada poderá contra teu rosto grave
O olho no horizonte, a mão que acena ao longe
Para a visita de um milagre, a liberdade


13 de agosto de 2017

ACALME SUA VOZ




Nei Duclós


Somos os outros,
os que não estão na lista,
os que existem em vidas paralelas
ao que se considera a verdadeira realidade.

Mas não somos feitos de neblina ou nuvem,
somos concretos como alguém muito próximo
que esteve sempre conosco e de repente parte,
levando consigo o coração que insistimos
em manter aceso em qualquer profundeza,
em qualquer planície,
em qualquer topo de montanha.

Somos os que não prestam.
Venha até nós, espírito inquieto.
Acalme sua voz
entre nossos serões inesquecíveis.