20 de abril de 2018

PERDIDOS


Nei Duclós

A solidão nos enlouquece
Mas não nos damos conta
Ficamos ao redor do mesmo
ano após ano
E quando nos reencontramos
já somos outros

Enlouqueceu, dizemos uns dos outros
Implodidos em nossa teimosia dos sentidos

Tomamos trilhas sem volta
Para escapar dos convivios
Enquanto isso, sinais de algo terrivel nos circunda
Achamos que não pega nada
permanecer perdidos


15 de abril de 2018

A DETETIVE


Nei Duclós

O dia só tira
Fica um resto
que decide a poesia

Em vão tentamos preencher o vazio
soltando a língua

Mas a cortina se fecha
Olhamos através do vidro
Alguém de campana na esquina

É a oculta detetive
Ela investiga as pistas
que deixei na cena do crime

São frangalhos de poemas
Inútil teimosia.
Ela procura uma carta perdida

Lá eu confesso:
Não soube terminar um verso
E te liguei, musa convicta


FELTRO


Nei Duclós

O melhores poemas são de feltro
Suavidade que adivInha a pele
Conforta no clima dos conflitos
Protege a atenção com algum carinho

São palavras apropriadas, não sedosas
Tem a rudeza de fibras ainda cruas
Cobre o piso com seu liso arrulho

São poemas para depois da guerra
Quando voltas para casa lastimado
E te recebem numa cama limpa
E uma colcha tecida pelo amor exausto


GRAVAÇÕES

Nei Duclós

O segredo, perdemos
confundidos no silêncio
Não deixou pistas
o que nos formou primeiro

Mas carregamos esse lance
cegos de vivência
esquecidos o quanto devemos

Mas basta uma voz, um canto
gravados no couro espesso
para que o sangue submerso
Emerja


11 de abril de 2018

DESPERTOS


Nei Duclós

É bizarro o perfil do velho louco
Pudera, vejam o que aprontam
com seus hábitos, plenos de deboche

Ninguém está livre de chorar na chuva
Nem de ler no escuro ou observar corujas

Tudo sumirá na voragem do crepúsculo
A insanidade é própria do que vive

A idade é a mistura sem princípios
Os cães conversam, as pedras ouvem
E as nuvens inventam as tardes tontas
Em que amamos sem nos dar conta

Estamos despertos porque o tempo existe


10 de abril de 2018

NAS MÃOS DO MILAGRE


Nei Duclós

Não se trata de mentira ou fingimento
O poema é outro departamento
É a verdade que todos desconfiam
A franqueza no mundo mesquinho

É a diferença da água para o vinho
Nas mãos do milagre sobre a mesa
Na vida onde entramos sem convite