28 de outubro de 2009

O HEROISMO EM “OS FALSÁRIOS”


Herói é aquele que abre mão do heroísmo, mas não da sua humanidade. Uma essência indestrutível apesar do horror e que, no final, contrariando as aparências e as evidências, o devolve à ação solidária e ética que o redime. O herói não aparece e compartilha sua glória em segredo com alguém muito próximo. Vimos isso no clássico Casablanca, em que Ricky é o mercenário sem coração que acaba fazendo o gesto supremo de abrir mão do seu grande amor em favor de alguém que ele não conhecia, mas que merecia escapar. Vemos isso no artista judeu de Os Falsários, do austríaco Stefan Ruzowitzky, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008.

Mas não é tão simples assim. Salomon Sorowitsch (ou Sally, interpretado por Karl Markovics ) é convocado pelos nazistas, que o fizeram prisioneiro, para falsificar libras e dólares e assim ajudar a financiar a guerra dos alemães, além de tentar desestabilizar a economia dos aliados. Ele se submete para sobreviver e com isso ajuda todos os seus companheiros, que compartilham da confecção das notas falsas. Seu oposto é Adolfo Burger (August Diehl) personagem inspirado no autor do livro, de onde foi tirado o roteiro e que virou consultor das filmagens.

Burger é o protótipo do herói consciente e explícito, reconhecido como tal, que boicota a confecção do dinheiro por questão de princípios. Não se submete, mas isso ameaça todo o projeto e em conseqüência a vida dos companheiros. Quem é o herói? Burger, que com sua ação acabou prejudicando os nazistas, que não conseguiram inundar de dólares a economia de guerra? Ou Sally, que conseguiu chegar aos objetivos do programa e assim manteve todos vivos? Para quem toma conhecimento da história no final, quando os aliados chegaram, sem dúvida que é Burger. Sally se afasta e vai amargar sua solidão em Monte Carlo.

O dinheiro falso que leva consigo é arriscado, ou melhor, jogado fora integralmente na roleta. Assim ele recupera sua humanidade perdida, depois de anos sob o jugo dos carrascos e tendo que fazer o jogo deles. Lembra até o pequeno grande poema de Manuel Bandeira, que aponta para a única solução do irremediável: dançar um tango argentino. É o que Sally faz, com uma prostituta que se encanta com seu desprendimento, depois de ser atraída pelo dinheiro falso. Sally é um artista, que no lugar de fazer arte para ganhar dinheiro, preferiu fazer dinheiro diretamente.

Essa era sua ocupação antes da guerra e por isso foi preso. O mesmo policial que o prendeu, Friedrich Herzog (Devid Striesow), acaba localizando o especialista entre os campos de concentração e o convoca para o projeto. Herzog é o retrato da indiferença criminosa, a mesma que temos no Brasil, em que milhões de pessoas vivem sob o terror, dentro e fora das prisões, enquanto perdemos tempo com futilidades. A esposa do carrasco, que vive numa casa enorme e confortável com o marido e os três filhos, é um poço ridículo de preconceitos. A carnificina não a atinge, ela que vive cercada pelo luxo e mergulhada na alienação e na inconsciência. Seu cinismo é revelador e atualíssimo.

“Os falsários” foi celebrado como um filme inovador sobre a Segunda Guerra, pois mostra um tema nunca explorado até agora e não perde tempo com crueldades inúteis. A brutalidade é humana e chega no seu grau mais intenso no nazismo. Mas faz parte de todos. Os próprios prisioneiros, que não experimentaram as regalias do grupo de falsificadores, queria matá-los, achando que eram nazistas. O que os salvou foram os braços marcados por todos os que passaram por Auschwitz. Pela primeira, vez, aqueles números sinistros serviram para salvar vidas.

Não há heróis, dirão. Certamente que há. Mas o heroísmo não é a cerimônia com fanfarras. É antes a semente imortal da criatura que se recusa a passar impunemente pela terra. Deixa sua marca no coração dos contemporâneos, mesmo que esses nem se dêem conta do bem que foi praticado em seus nomes.

Como Ricky/Bogart, que explica para a amada os motivos da sua renúncia e por isso emociona, pela grandeza do gesto, assim também o personagem interpretado por John Wayne em "O Homem que matou o facínora", de John Ford, que mata o vilão, mas deixa o crédito para o seu amigo. Só quando ele morre é que emerge o herói oculto com toda a sua integridade. O heroismo de Sally, como o de Bogart e Wayne, pauta-se pelo exemplo, não pelas medalhas.

RETORNO - Imagem desta edição: Karl Markovics desenha a representação do falso heroismo nazista para conseguir sobreviver.

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