22 de julho de 2017

INÍCIO DE VIAGEM



Nei Duclós

Ser muito pouco no turbilhão do mundo
Fagulha sem repercussão externa
Cultivo pobre em reduto e esquema
Vida impessoal que exaure o sonho

Quantos são assim, isolamento em massa
Sem sintonia da presença ou fala
Passar lotado no funil da época
Conformar-se, de rosto crispado

Isso decepciona o anjo da guarda
O que aposta tudo em seu protegido
Queria dar-lhe asas mas é proibido
Não que ele precise da transgressão das almas
Fica distraído sem lhe faltar o básico

Por isso há tanto anjo jogado às traças
Que precisa do apoio de quem o abandona
Por achar que é terminal o início de viagem

Fica difícil convencer a humanidade
que apesar do medo, o sofrimento e a morte
Temos uma porção da divindade
Viemos para ficar com a marca da passagem


EU VIM DO BRASIL



Nei Duclós

Eu vim do Brasil
É a frase a ser dita
Depois que a fronteira nos expulsa
Nas terras além dos limites

Vim da nação que jamais cabe no exagero,
por ser sempre maior

E não se trata apenas da paisagem
Mas da riqueza ombro a ombro com a miséria
Ambas sobrando como as ondas
Que nas marés engolem as praias e mais a lua

E não falo apenas dos povos que em raça e gênero se conflitam
E se misturam, mas o desplante do caráter e do convivio

Falo da História que em enigmas nos confunde
Nas invasões, nas guerras que se ocultam
em documentos que alimentam as traças
Ou na criação que do alto à decadência
Faz rodizio como campo e cordilheira

Só há um jeito de mostrar
a verdadeira dimensão do gigante
É pela poesia, dança da palavra
Que na mulher e no homem faz volume
O coração em movimento, seu domínio
permanente sobre o tempo


GARCIA NA SEÇÃO DE LIVROS DA SENHOR



Nei Duclós

Indicado pelo professor Luiz Gonzaga Belluzzo, que era conselheiro editorial da Senhor dos anos 80, revista dirigida por Mino Carta na Editora Três, o acadêmico Marco Aurélio Garcia foi um dos resenhistas da seção de Livros que foi criada e editada por mim por cinco anos.. Garcia era competente e importante para nossa seção. Eu enviava, a seu pedido, os lançamentos de História e ele distribuía entre os professores da Unicamp. Abastecia assim a revista com textos (remunerados, além de o resenhista ganhar o livro de presente, o que não acontecia na Veja, por exemplo, para a qual colaborei por algum tempo). Garcia ajudava a preencher as muitas páginas que me cabia editar. Nos entendíamos perfeitamente. Ele sempre gentil e atento. .

Outro âncora da seção era Fernando Homem de Melo, que cuidava dos lançamentos de economia. Fazia a mesma coisa, repassava os títulos para colegas acadêmicos. Na sociologia e na política tínhamos o dinamismo de Maria Victoria Benevides e na filosofia o tímido e brilhante Luis Salinas Fortes. Ambos faziam resenhas primorosas (Salinas ficava em dúvida sobre o texto e me perguntava. Eu ria e publicava tudo na íntegra, obviamente. Salinas é um dos mais celebrados acadêmicos de filosofia do país. Partiu cedo, infelizmente). E havia ainda, em todas as edições, o Emir Sader, recém vindo do exílio, magrinho e de bolsa a tiracolo e cabelo comprido.

Talvez esse tenha sido meu mais importante trabalho no jornalismo, o de maior repercussão, pela qualidade dos colaboradores e também pela maneira como eu editava, tratando Livros como se fosse uma seção de Política e Economia (o que no fundo era), ou seja, com títulos e destaques de primeiro caderno e não de periferia, de "entretenimento". A seção de Livros era a Cultura da revista, assunto que não era abordado no resto da publicação, focada em Política, Economia e Negócios.

Mino Carta não tinha planos para uma seção de livros. Acontece que antes de ele chegar eu fechava a revista inteira, que era quinzenal, como editor de texto do diretor dessa fase, meu querido e saudoso amigo Mucio Borges da Fonseca ("vamos fechar, Nei Duclôs, vamos fechar" dizia ele mudando a acentuação do meu nome, batendo palmas e soprando as mãos de tanta ansiedade). Mino viu meu trabalho enquanto fazia a transição para a Senhor semanal.

Eu tinha entrado em contato com as editoras importantes e estava forrado de livros sérios, que não eram abordados pelos outros veículos, que só cuidavam no geral de best- sellers e modinhas. O executivo da Brasiliense, Luiz Schawarz (que a partir desse trabalho com Caio Graco fundou a Companhia das Letras) veio me pedir espaço para que eu mandasse resenhar As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, que era best-seller (tinha vendido 80 mil exemplares) e nem Folha, Estadão ou Globo tinham dado destaque. Escancarei a revista para Schwarz, mandando resenhar inúmeros lançamentos que ele editava na Brasiliense.

Mais tarde a Folha roubou alguns colaboradores e imitou um pouco nossa seção. Saí da Senhor e fui para a IstoÉ para ser um dos editores de Brasil. Mas a seção permaneceu até a Senhor ser engolida pela IstoÉ. Até hoje desconfio que Mino não perdoou minha saída e fez a Três comprar o título rs. Claro que não fui aproveitado. Sobrei. Quem manda ser ingrato.

Foi quando surgiu a provisória IstoÉ/Senhor. Hoje não temos pistas dessa Senhor dos anos 1980, revista primorosa, impressa em papel bíblia, que teve presença importante na chamada abertura. Mas nós, que carregamos aquele piano, meia dúzia de abnegados, sabemos que ela existiu. A redação ficava na sede da Três na rua Wliiam Speers na Lapa de Baixo. A foto dá uma ideia do prédio detonado. Ali, com janelas emperradas, teto que chovia fuligem, fazíamos a sofisticada Senhor. Coisas do Brasil. Eu ia de ônibus. Para chegar no trabalho cruzava um túnel tenebroso para pedestres, sob a linha do trem. Esta é uma profissão heróica.


MÂNTRA



Nei Duclós

Procuras o que hoje não entrego
Contrariando a fome do poema
Oculto a lavra do tardio esquema
Fio desencapado a tomar chuva
Previsão de um adiado choque mútuo

Finjo me ocupar explorando grutas
Nenhuma lâmpada conserva-se no intimo
O inverno combinado às armadilhas
Faço de conta que não há registro
Para um salto quântico, o encontro

Prefiro a solidão, crepúsculo do verbo
Mas és avessa à decisão de ausências
E rompes a estação cobrando a conta
A palavra está na pele, rigor de mântra
O som do amor cultivado na colheita


18 de julho de 2017

SOPRO DE FRENTE



Nei Duclós

Quando canso de pensar, faço o poema
Nã por ser obscuro ou obsceno
Que se alinhe ao vinho ou ao feno
Ou tenha preguiça e quer se recolher

Mas porque nele a palavra se apruma
Respira fundo antes das palestras
Faz exercício para entrar em cena
Escolhe o destino do verso perfeito

Esvazio a mente para que o verbo
Encontre ambiente ao levantar âncora
Navega, meu canto, no mar da poesia
Sopra de frente na rosa dos ventos